Proposta




O brilho suave do “purgatório” etéreo envolvia tudo em um clarão perolado, onde almas cintilantes, cada uma tingida de um matiz diferente, flutuavam como pequenas chamas dançando no ar. Alinhadas em filas ordenadas diante de um imponente portão forjado em ouro reluzente, elas aguardavam sua vez de atravessar o limiar. Ao lado, um balcão de recepção esculpido em mármore prateado abrigava um gato de pelagem branca impecável: usava óculos redondos de armação fina, um chapéu estilo cartola e um traje de recepcionista tão impecável quanto seu bigode pintado de branco.

 

Uma alma cor verde-água deslizou, levitando, aproximando-se timidamente do balcão, mas logo se deparou com três almas alaranjadas que bloqueavam o caminho. À medida que as três se juntavam, seu resplendor unificava-se até formarem um saco amarelo que saltitava em direção ao gato. Pequenas gotas de água cintilavam e pingavam do tecido translúcido, como se aquele embrulho pulsasse de vida líquida.

 

Chegando ao balcão, o saco estremeceu, e o laço verde que o selava se desfez num sussurro. O tecido abriu-se revelando três gatinhos: um de pelos negros como ébano, outro de laranja vívido e o último numa nuance marrom-alaranjada suave. O recepcionista, apoiado no balcão, levantou um livro branco de capa lisa e começou a folhear com desdém contido. Murmurou, sem desviar o olhar das páginas:

“Vocês devem ser Fluff, Muff e Puffy.”

 

Ao fechar o livro com um estalo quase imperceptível, ergueu os olhos já marejados por uma tristeza profunda. Com um gesto lento, apontou para um corredor ao fundo, além da recepção. Em seguida, levantou a pata e fez um aceno suave, convidando os três filhotes a seguir em frente. Instantaneamente, os miados de alegria ecoaram enquanto eles saltavam do saco amarelo e se dirigiam, saltitantes, para o corredor indicado.

 

Quando a última patinha desapareceu na penumbra dourada, o gato ajustou os óculos com delicadeza e, baixinho, quase em confidência a si mesmo, murmurou:

“Tem gente que é capaz de tudo…”

 

O brilho esverdeado daquela alma voltou a pulsar com intensidade ao retomar seu caminho em direção à recepção. À medida que flutuava mais perto, seu contorno etéreo se condensou até que, num clarão suave, ali não mais pairava uma chama — mas um jovem de feições serenas. Seu rosto arredondado e delicado ostentava traços suaves: olhos grandes, castanho-avermelhados, cintilantes de curiosidade, sobrancelhas finas arqueando-se sobre eles. Os cabelos curtos, castanhos e lisos, caíam desordenados sobre a testa em franjas irregulares, emoldurando o rosto com naturalidade.

 

Ele trajava uma túnica bege de mangas longas, presa no peito por amarrações rústicas em “X” que lembravam algo medieval, ou talvez o vestuário simples de aldeões de mundos fantásticos; o decote levemente aberto dava-lhe um ar prático e descontraído. As calças, em tom vinho escuro, ajustavam-se ao corpo e eram dobradas até as canelas, deixando à mostra botas de couro marrom que subiam até os joelhos, firmemente cruzadas por cadarços. O jovem parecia magro, mas de postura ereta, e parou diante do balcão com expressão de quem acorda de um sonho.

 

O gato recepcionista, ainda de óculos ajustados no focinho, virava as páginas de um volumoso livro branco. Ergueu o olhar apenas quando terminou de folhear e, sem alterar o tom calmo, murmurou:

“Você deve ser Luís Guilherme Max de Rodrigues… Hmmm, morreu por conta da ‘Bruma Cinérea’.”

 

Max franziu as sobrancelhas em dúvida, a voz vacilante de quem ainda tenta se situar:

“Se me permite perguntar… onde exatamente estamos? E o que vai acontecer comigo? Subirei, descerei… ou… não sei.”

 

O gato recolheu o livro ao balcão, ajustou os óculos com delicadeza e respondeu, apontando para o halo perolado além do portão dourado:

“Estamos num espaço semelhante a um purgatório. Aqui chegam as almas que não cometeram tantos pecados — ou apenas alguns leves — e aguardam seu destino. Sou o recepcionista deste setor, encarregado das almas gerais. Quanto ao que ocorrerá com você… bem, é variável. Mas, pelo que consta em seu dossiê, há um adendo final que determina: você deve se dirigir a uma seção separada para uma conversa.”

 

Ele inclinou o corpo, como confidenciando algo, e completou:

“Não se preocupe — não deve ser nada ruim. Tome isto.”

 

Do balcão, o gato retirou um pequeno botão marrom, no centro do qual reluzia um prisma dourado. Estendeu-o a Max, que arregalou os olhos ao segurá-lo. O recepcionista ergueu a pata, acenando em incentivo, e disse:

“Para ir até lá, aperte o botão.”

 

Max olhou-o, hesitou um segundo e, reunindo coragem, pressionou o objeto. Num instante, seu corpo se desfez em partículas cintilantes e evaporou no ar. O gato, então, folheou a página do arquivo de Max, fechou o livro e virou-se para a próxima alma que se aproximava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cenário se descortinava como um tapete de nuvens imaculadas, estendendo-se até onde a vista alcançava, sem o menor sopro de vento a perturbar sua serenidade. No meio daquele vazio celestial pairava uma plataforma flutuante, de madeira escura e polida, sustentada por correntes invisíveis. Sobre ela, repousava uma mesa de inspiração nipônica: tampo baixo, de linhas retas e minimalistas, ladeada por almofadas sob medida para acomodar os ocupantes em posição de seiza.

 

Sentados frente a frente, encontravam-se Max e um senhor de estatura mediana, cuja presença emanava uma autoridade gentil. Os cabelos brancos, penteados para trás com primor, emolduravam um rosto vincado por anos de contemplação; a longa barba, igualmente alva, descia em suaves cachos sobre o peito. Óculos redondos repousavam sobre o dorso do nariz, dando-lhe um ar de sábio. O traje tradicional japonês combinava um quimono verde-oliva claro, coberto por um haori marrom que balançava levemente, como se fosse tecido de nuvem. Na cintura, um obi verde ajustava o conjunto, enquanto sandálias zori, calçadas sobre meias brancas, completavam o vestuário.

 

Entre eles, um pequeno chá verde exalava vapor perfumado em xícaras de cerâmica artesanal, cada uma estampada com um nome: “Deus” em letras sutis, inscritas em tinta dourada. O ancião levantou o copo com delicadeza e tomou um gole, fechando os olhos como quem saboreia um momento eterno. Então falou, com voz pausada:

 

“Digamos que eu concluí alguns cálculos imperfeitos e acabei precipitando sua morte. Sua doença, a ‘Bruma Cinérea’, desenvolveu-se cedo demais e o levou antes do tempo.”

 

Max ergueu o olhar, as sobrancelhas arqueadas pela surpresa, enquanto observava o delicado vapor elevar-se da bebida. Sentiu um arrepio ao ver “Deus” gravado na xícara, mas aquilo se dissipou quando o homem falou novamente:

 

“Desculpe perguntar, mas, senhor… se realmente for Deus, esse erro seria quase impossível. O que quis dizer com ‘apressar minha morte’?”

 

O ancião deixou a xícara sob a mesa, apoiando as mãos sobre as coxas antes de responder, como quem reúne forças para uma confissão:

 

“Originalmente, sua doença só se manifestaria ao fim de sua vida, em um estágio naturalmente avançado. Mas um deslize meu fez com que ela se desenvolvesse aos 21 anos. Foi um erro imperdoável, fruto do equilíbrio genético que você carregava.”

 

Max franziu a testa, intrigado:

 

“Quer dizer que o destino de todos já está traçado desde o nascimento?”

 

O velho soltou um suspiro, ergueu a xícara para um novo gole e explicou:

 

“Não, jovem. O destino não é uma estrada única e imutável. São infinitas possibilidades, quase incontáveis. Antes de você, estudei vários caminhos que sua vida poderia ter tomado — mas, na maioria, essa doença surgia apenas no fim. Foi por sua genética peculiar que ela se manifestou cedo demais. Reconheço meu erro e lamento profundamente.”

 

Max permaneceu em silêncio por um instante, as palavras respirando no ar. Finalmente, suavizou o cenho e disse:

 

“Mesmo sendo difícil acreditar que Deus erra, eu o perdoo. Erros acontecem, e muitas vezes pagamos o preço por falhas alheias ou nossas. Sou grato, pois minha morte, embora lenta, não foi tão dolorosa quanto a de muitos outros.”

 

O ancião sorriu com ternura, visivelmente aliviado pela compreensão de Max, e afirmou:

 

“Na verdade, não sou o único Deus — sou apenas um entre muitos, encarregado deste mundo.”

 

Max arregalou os olhos, fascinado:

 

“Muitos mundos… isso deve ser fascinante, não é?”

 

“Sim,” respondeu o homem, recostando-se levemente. “Cada mundo tem seus próprios dilemas: uns poucos, outros inúmeros. Ainda assim, todos merecem cuidado. Quer provar outro gole de chá?”

 

Max balançou a cabeça em sinal de recusa, mas o ancião estalou os dedos da mão direita. Num instante, uma nova xícara surgiu à frente deles, desta vez com o nome “Max” inscrito em letras elegantes. O jovem a pegou, sentiu o aroma e tomou um gole longo, surpreso:

 

“Humm… até que não é tão ruim.”

 

Ele devolveu a xícara à mesa e, erguendo o olhar, perguntou com tranquilidade:

 

“Já que conversamos… poderia me dizer para onde vou agora?”

 

O sol perolado que banhava a plataforma flutuante parecia pulsar em sintonia com o coração de Max quando o recepcionista voltou-se para ele, ergueu a sobrancelha sábia e anunciou em voz serena:

“Tenho uma proposta para você, Luís Guilherme Max de Rodrigues.”

 

Max ergueu o olhar, surpreso pela formalidade que soava tão íntima. “E qual seria? Vindo de um deus, deve ser algo extraordinário.”

 

O ancião franziu levemente os lábios antes de responder, como se pesasse cada sílaba:

“Quero redimir-me de meu erro, mas, pelas regras celestiais, não posso trazê-lo de volta ao seu mundo. Em vez disso, ofereço-lhe a chance de reencarnar em um novo mundo.”

 

Um calafrio percorreu a espinha de Max. “Em um novo mundo?”

 

“Exato.” O recepcionista fez um discreto aceno de cabeça. “Aquele mesmo mundo do qual falei anteriormente — aquele sobre o qual sou deus.”

 

Max franziu a testa, curioso. “Como é esse mundo?”

 

“Imagine um lugar vibrante, tão comum e, ao mesmo tempo, repleto de fantasia. Um universo onde as pessoas despertam poderes, enfrentam perigos… algo digno das histórias de mangá ou dos animes isekai que você gostava de assistir.”

 

Os olhos de Max brilharam. “Então, seria como cair em um isekai?”

 

O senhor assentiu, serenamente satisfeito com o interesse do jovem. “Podemos dizer que sim. Há magia, lutas e aventuras sem fim.”

 

Max respirou fundo, um sorriso tímido se formando em seus lábios. “Mas… e quanto a mim? Como vou lidar com tudo isso?”

 

O deus ergueu um dedo, indicando que havia mais. “Para isso, faço meu segundo pedido: escolha um desejo — qualquer um.”

 

Max ficou pensativo. Aquela generosidade era quase utópica. Parecia conhecer seu coração tão bem quanto ele próprio. Finalmente falou, a voz embargada de nostalgia:

“Sabe… quando estive no hospital, uma das únicas distrações era a TV que sintonizava, diariamente às 16 horas, um seriado de heróis japoneses — Super Sentai Flashman. Sempre gostei daquela força, daqueles uniformes coloridos. Nos meus sonhos, eu lutava ao lado deles, com poderes e aventuras incríveis. Se meu desejo não for egoísta, gostaria de viver uma aventura assim, como aquelas séries.”

 

Um lampejo de alegria cintilou nos olhos do recepcionista. “É claro, Luís. Seu desejo é legítimo.”

 

Max balançou a cabeça, aliviado. “Mais uma dúvida: na reencarnação, poderei manter meu corpo atual?”

 

“Sim, você renascerá com a mesma forma que conhece.”

 

“E minhas memórias?”

 

“Permanecerão intactas, se assim desejar.”

 

Max sorriu com gratidão. “Então… renascerei, mas sem nascer de novo?”

 

“Exato. Você simplesmente surgirá naquele mundo, pronto para seguir adiante.”

 

Max se inclinou, absorvendo cada detalhe. “E como funcionará esse poder que terei?”

 

O deus fechou os olhos, franzindo as sobrancelhas num gesto quase paternal. “Não quero revelar spoilers, mesmo sabendo o quanto você anseia por detalhes. Confie em mim e tenha fé: sua aventura pode atrasar-se um pouco, mas acontecerá.”

 

“Antes de eu partir… haverá algo que você me dará? Algum suporte ou guia financeiro?”

 

O ancião sorriu. “Pode contar comigo. Já planejei tudo; não se preocupe.”

 

Max suspirou, as pálpebras pesadas de emoção, e perguntou baixinho:

“Posso saber se minha mãe, minha irmã e o pequeno Thomas estão bem?”

 

O deus fez um gesto de afirmação. “Eles repousam em paz no descanso eterno.”

 

Uma lágrima solitária deslizou pelo rosto de Max, que sussurrou, com a voz embargada de ternura:

“É bom saber que eles estão bem. Obrigado por me contar.”

 

Max agradeceu com um leve aceno e, ainda segurando a xícara, ergueu-se do assento. Terminou de beber seu chá em alguns goles rápidos, colocou a xícara sobre a mesa e ficou ao lado do recepcionista divino, ajeitando a postura. O ancião ajeitou os óculos, voltou-se e falou em tom suave:

 

“Bom, quer partir agora?”

 

Max assentiu com a cabeça, o coração acelerado. O “deus” ergueu lentamente as duas mãos em direção a ele, e aos poucos, sob o próprio corpo de Max, emergiu um círculo mágico de filamentos dourados e prateados, girando como engrenagens etéreas. O jovem arregalou os olhos: aquele não era um efeito de tela de cinema — era real.

 

“Luís, desejo-lhe a mais profunda sorte e, mais uma vez, peço perdão pelo ocorrido. Viva esta nova vida melhor do que a antiga. Sei que ainda tem sonhos por realizar, então aproveite.”

 

O recepcionista fez uma reverência discreta, e Max quis perguntar se voltariam a se encontrar, mas o pensamento se perdeu quando o círculo de luz envolveu seu corpo por completo. Um flash ofuscante, ora branco, ora rubro, tomou conta de cada fibra de seu ser.

 

Em poucos instantes, tudo desapareceu. O ancião voltou o olhar para o espaço vazio onde Max estivera, soltou um suspiro melancólico e, retornando ao próprio assento, estalou os dedos. No ar, formou-se uma pequena televisão com antenas finas, cintilando em azul suave.

 

Ele se inclinou e murmurou para si mesmo, curioso:

“Estou ansioso para ver como será sua jornada, Luís Guilherme… quem sabe nos veremos novamente em breve, quem sabe.”

 

A tela ligou-se com um chiado breve, iluminando o salão suspenso sobre nuvens, enquanto o deus se acomodava para acompanhar os primeiros passos daquela nova história.

 

 

 

 

 

 

 

 

Continua....

 

 

 

 

 

 

Prévia:

 

 

O horizonte reflectia um céu rubro, e Max erguia os olhos, surpreso consigo mesmo:

 

“Curioso… este mundo é quase igual ao que deixei — duas guerras mundiais, avanços tecnológicos espetaculares, megacidades reluzentes… Mas a grande diferença é o Brasil. Aqui, fomos colonizados não só por Portugal, mas também pela Suécia, e nos tornamos uma nação desenvolvida, próspera, exemplo mundo afora.”

 

Ele passou a mão no bolso da túnica e sorriu, tirando de lá um pequeno envelope branco, lacrado com um selo em relevo:

 

“Presentinho financeiro do meu… amigo divino.”

 

Max abriu o envelope e contou as notas com um olhar de gratidão, mas logo o cenário se dissolveu em um brilho ofuscante, dando lugar a três anos de sua nova vida. Víamos Max em montagens frenéticas: atendendo clientes exigentes, entregando trabalhos braçais, servindo em cafés, cada emprego terminando abruptamente com um “Você está demitido!” estampado em papéis de justa causa. Ao sair de uma lojinha de R$ 30, ele chutou a porta e resmungou:

 

“Acho que aquele deus me vendeu conversa fiada… Três anos e nada acontece!”

 

Corta para uma praça iluminada por postes de LED futuristas, quando um vórtice de energia se abre num portal cintilante. De lá, um gigante mecânico avança e começa a lançar rajadas de fogo contra os edifícios — a cena congela no instante em que a destruição irrompe.

 

Em seguida, Max desperta em um lugar estranho, entre ruínas cobertas por vinhas luminescentes. No chão, meio enterrado em areia prateada, repousa um anel vermelho e dourado. Ele se abaixa, pega o objeto e o examina.

 

Então, tudo se apaga numa tela negra, e um som distante ecoa: um uivo forte, rouco, como de um lobo selvagem…

 

 

 

 

 

 

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